17 de maio de 2018 às 02:00

Movimentos sociais de esquerda e PUC fazem curso contra 'fake news da direita'

Entre aulas sobre ?questão agrária no Brasil? e ?processo de colonização e estrutura patriarcal?, este ano o curso livre de formação política para militantes de movimentos sociais de esquerda promovido pela Escola Nacional Florestan Fernandes, criada pelo

Entre aulas sobre “questão agrária no Brasil” e “processo de colonização e estrutura patriarcal”, este ano o curso livre de formação política para militantes de movimentos sociais de esquerda promovido pela Escola Nacional Florestan Fernandes, criada pelo MST (Movimento dos Sem Terra), ensinará também como driblar as fake news e encarar a “guerrilha digital”. 

O intitulado “Seminário sobre realidade brasileira” ganhou um “e mídia” no fim do nome nesta edição, feita em parceria com a PUC-SP, onde o curso está sendo ministrado. 

As 100 vagas previstas viraram 400 inscrições em dias (predominantemente de militantes do MST e do MTST, de trabalhadores sem-teto, mas também de estudantes da universidade), forçando a abertura de uma segunda turma.

“Qualquer movimento hoje tem que saber monitorar, se precaver e responder rapidamente às fake news”, afirma Pollyana Ferrari, professora da PUC-SP, que dará o módulo “Guerrilha da comunicação digital e fake news como método de construção da hegemonia conservadora”, junto com o jornalista Leonardo Sakamoto, autor do livro “O Que Aprendi Sendo Xingado na Internet” (Leya).

Ainda mais um movimento que sempre é alvo das notícias distorcidas, com o dos sem-teto e sem-terra, diz o advogado Ronaldo Pagotto, um dos organizadores do curso. “Num momento de polarização e acirramento político, com milhares de mentiras sendo espalhadas, o assunto ganhou importância especial.”

Depois do assassinato da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) em março e do desabamento do prédio ocupado no centro de São Paulo no início de maio, conta Ferrari, “nós vimos que até tragédias podem gerar notícias falsas”.

Marielle foi associada ao traficante Marcinho VP e à facção criminosa Comando Vermelho depois de morta. E o pré-candidato à Presidência da República e líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos (PSOL) foi acusado de cobrar aluguel das pessoas que moravam no prédio vítima do incêndio.

Para a professora, a ideia que se tem desses movimentos sociais é um “discurso hegemônico de que são bandidos”. “Mas aquelas pessoas, do alto das suas varandas, nunca foram numa ocupação.”

E não é só no terreno das redes sociais que são produzidas fake news, segundo José Arbex, chefe do departamento de Jornalismo da PUC-SP e professor da Escola Nacional Florestan Fernandes. Ele atribui a pecha por estabelecer a agenda hegemônica à mídia tradicional, que também ajudaria a propagar inverdades. 

“É o jornalismo ?mainstream?, de cinco grandes veículos de mídia, que determina o que é ou não notícia. E se divulga muita coisa falsa, intencionalmente ou por falta de informação”, afirma Arbex, responsável por outro novo módulo do curso: “A formação dos monopólios e o papel da mídia no Brasil”.

De acordo com o professor, “90% das notícias que saem [sobre os movimentos sociais] são incompletas, falsas, erradas” ou com “ideias preconcebidas”. 

Se preparar para travar luta contra fake news, nesse cenário, faz parte da batalha de ideias, defendem Ferrari e Arbex. “Nós achamos que a fake news ocupa lugar central na guerra de informações principalmente num cenário eleitoral”, afirma o professor. 

“Se alguém presta um desserviço, como o Pensa Brasil e o MBL [Movimento Brasil Livre], a gente encara como uma guerrilha digital, seja vindo de escritórios que ganham dinheiro com isso, seja de alguns candidatos [às eleições de outubro]”, diz Ferrari. 

Mas o bombardeio é só pela direita? “A fake news pega todo mundo, mas a gente não tem visto hegemonia da esquerda na criação de notícias falsas, mas sim da direita. É sempre uma ação conservadora, de ódio do outro”, defende a professora.

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo